Era
uma vez há milhares de anos, em algum ponto longínquo do continente
africano, um assentamento de hominídeos que desenvolveu uma curiosa
vantagem evolutiva: a capacidade de abstração. Com ela tornaram-se
capazes de inferir dados sobre o ambiente através de sons, sombras,
odores e outros sinais sutis deste, sem que precisassem
necessariamente ver suas fontes. Assim, ficaram mais aptos a
sobreviver a emboscadas de grandes predadores, por exemplo. É uma
grande vantagem, mas pense em dormir numa savana à noite ouvindo
todo tipo de som e sentindo movimentos de seres os quais você não
consegue ver. Quem já acampou em mata fechada sabe do que estou
falando.
Uma
mente capaz de abstrair, ou seja, de ir além do que é diretamente
observável ou palpável, também acaba submetida à uma série de
incertezas a respeito do ambiente que a cerca. Tais novas incertezas
conduzem alguns a temerem algo pior que um leão ou um leopardo, algo
novo: o desconhecido. Mais há um revés nesta situação: estes
novos temores e incertezas reforçam o comportamento gregário já
presente naquele grupo, visto que juntos são mais fortes e mais
aptos a se defenderem seja lá do que for.
Da
mesma forma, a capacidade de abstração, por estar ligada à
criatividade e imaginação, acaba por colaborar a longo prazo para a
evolução tecnológica pois permite que nossos ancestrais hominídeos
identifiquem características úteis em objetos do ambiente antes
inócuos e, mais a frente, passem a trabalhar tais objetos para lhes
ressaltar tais características ou torná-los mais eficientes. Nossos
hominídeos agora não precisam mais temer tanto o desconhecido pois
desenvolveram ferramentas que os colocam em posição de vantagem com
relação aos seus possíveis predadores e os tornam mais aptos a
aproveitar os antes escassos recursos do ambiente. Certo? Não
necessariamente.
Apesar
de terem expandido seu conhecimento e seu domínio sobre uma parcela
do ambiente que os cerca, notadamente a parte viva deste ambiente,
esses hominídeos ainda não dispõem de conhecimento, muito menos
ferramentas, para lidar com uma outra parcela deste mesmo ambiente.
Por exemplo, podemos incluir aí os fenômenos climáticos. Nosso
ancestrais, naquele ponto, não dispunham de conhecimento e
ferramentas para explicar como a chuva se formava, quando isso
ocorreria e em qual volume. Não sabiam a verdadeira natureza de um
raio ou quando um surgiria no céu. Viam o Sol, a Lua e as estrelas
se moverem no firmamento, mas não podiam ainda explicar tais eventos.
Não de forma concreta e prática.
É
neste ponto que a fértil mente de nossos ancestrais volta a
preencher as lacunas. Se as estrelas se movem, ou são coisas vivas
ou alguma coisa viva às move, visto que tudo que eles tem contato em
seu dia a dia que se move, ou é um ser vivo ou é movido por algum
ser vivo. Mas que coisa viva seria capaz de mover algo no céu sem
nunca ser vista. Para onde o Sol vai à noite? Se alguma coisa move o
Sol, deve ser ela também capaz de ocultá-lo à noite. E por aí
vai...
Chegamos
agora à primeira semente de crença no sobrenatural (por sinal,
sobrenatural quer dizer o que está além do natural) plantada nas
mentes de nossos ancestrais hominídeos. Notem porém que esta
história se passa a muitos milhares de anos, num período onde não
dispúnhamos de grande parte dos recursos técnico-científicos
modernos. Hoje sabemos como a esmagadora maioria dos fenômenos
naturais ocorrem e assim, abstrair explicações sobrenaturais para o
que quer que seja dentre esses fenômenos já desvendados não é algo mais tão justificável.
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