quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Do Fim do Mundo - Parte II

     Era uma vez há milhares de anos, em algum ponto longínquo do continente africano, um assentamento de hominídeos que desenvolveu uma curiosa vantagem evolutiva: a capacidade de abstração. Com ela tornaram-se capazes de inferir dados sobre o ambiente através de sons, sombras, odores e outros sinais sutis deste, sem que precisassem necessariamente ver suas fontes. Assim, ficaram mais aptos a sobreviver a emboscadas de grandes predadores, por exemplo. É uma grande vantagem, mas pense em dormir numa savana à noite ouvindo todo tipo de som e sentindo movimentos de seres os quais você não consegue ver. Quem já acampou em mata fechada sabe do que estou falando.
     Uma mente capaz de abstrair, ou seja, de ir além do que é diretamente observável ou palpável, também acaba submetida à uma série de incertezas a respeito do ambiente que a cerca. Tais novas incertezas conduzem alguns a temerem algo pior que um leão ou um leopardo, algo novo: o desconhecido. Mais há um revés nesta situação: estes novos temores e incertezas reforçam o comportamento gregário já presente naquele grupo, visto que juntos são mais fortes e mais aptos a se defenderem seja lá do que for.
     Da mesma forma, a capacidade de abstração, por estar ligada à criatividade e imaginação, acaba por colaborar a longo prazo para a evolução tecnológica pois permite que nossos ancestrais hominídeos identifiquem características úteis em objetos do ambiente antes inócuos e, mais a frente, passem a trabalhar tais objetos para lhes ressaltar tais características ou torná-los mais eficientes. Nossos hominídeos agora não precisam mais temer tanto o desconhecido pois desenvolveram ferramentas que os colocam em posição de vantagem com relação aos seus possíveis predadores e os tornam mais aptos a aproveitar os antes escassos recursos do ambiente. Certo? Não necessariamente.
     Apesar de terem expandido seu conhecimento e seu domínio sobre uma parcela do ambiente que os cerca, notadamente a parte viva deste ambiente, esses hominídeos ainda não dispõem de conhecimento, muito menos ferramentas, para lidar com uma outra parcela deste mesmo ambiente. Por exemplo, podemos incluir aí os fenômenos climáticos. Nosso ancestrais, naquele ponto, não dispunham de conhecimento e ferramentas para explicar como a chuva se formava, quando isso ocorreria e em qual volume. Não sabiam a verdadeira natureza de um raio ou quando um surgiria no céu. Viam o Sol, a Lua e as estrelas se moverem no firmamento, mas não podiam ainda explicar tais eventos. Não de forma concreta e prática.
     É neste ponto que a fértil mente de nossos ancestrais volta a preencher as lacunas. Se as estrelas se movem, ou são coisas vivas ou alguma coisa viva às move, visto que tudo que eles tem contato em seu dia a dia que se move, ou é um ser vivo ou é movido por algum ser vivo. Mas que coisa viva seria capaz de mover algo no céu sem nunca ser vista. Para onde o Sol vai à noite? Se alguma coisa move o Sol, deve ser ela também capaz de ocultá-lo à noite. E por aí vai...
     Chegamos agora à primeira semente de crença no sobrenatural (por sinal, sobrenatural quer dizer o que está além do natural) plantada nas mentes de nossos ancestrais hominídeos. Notem porém que esta história se passa a muitos milhares de anos, num período onde não dispúnhamos de grande parte dos recursos técnico-científicos modernos. Hoje sabemos como a esmagadora maioria dos fenômenos naturais ocorrem e assim, abstrair explicações sobrenaturais para o que quer que seja dentre esses fenômenos já desvendados não é algo mais tão justificável.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Do Fim do Mundo – Parte 1

Um momento ímpar na história da humanidade se aproxima, as horas se esvaem como areia em queda na ampulheta, o final de ano traz grandes mudanças e expectativas a todos os Homens do planeta, todos os avisos já foram dados e os sinais estão claros para qualquer um que queira ver. Em breve nos encontraremos com ele e seremos julgados por nossos pecados... Aí, se tivermos sido bons garotos vamos ganhar um lindo presente!
Como?! Ué, você achou que eu estava falando do quê? É claro que do Natal! E ele é o Papai Noel (afinal se fosse Deus, Ele começaria com maiúscula). O quê foi? Você não acredita em Papai Noel? Mas acredita que o mundo vai acabar no próximo dia 21? Pois dá no mesmo!
Ora, que me desculpem os mais crédulos e os místicos de plantão que alimentam toda esta credulidade mas vou ser direto: como ainda é possível se acreditar em algo como profecias apocalípticas pré-colombianas depois de tantos fiascos com profecias apocalípticas anteriores (ou será que já esqueceram da entrada do ano 2000).
Como é possível ainda fomentar tais ideias em um século onde a tecnologia e o conhecimento científico permite que fabriquemos material genético artificial, que criemos órgãos artificiais, que desintegremos átomos até as partículas mais elementares, que nos comuniquemos planetariamente em tempo real, que enviemos objetos não tripulados ao espaço profundo e coletemos informações sobre planetas fora de nosso sistema solar, entre toda uma vasta lista de avanços e benesses que só não cito aqui por medo de tornar o texto longo demais.
De certo que a contra-argumentação ao meu discurso logo surge na forma de uma longa e entediante falácia sobre o embasamento histórico e arqueológico em torno de uma obscura profecia, sinais numerológicos, sinais da natureza, posicionamento de astros, códigos secretos na Bíblia, na Torah e até textos de Nostradamus (é, ele é figurinha fácil e sempre se dá um jeito de encaixá-lo nestes momentos).
Bem, como disse não vou tornar este texto gigantesco tentando contra-contra-argumentar... ao menos não de uma vez. É, vou fazê-lo como se administra uma medicação muito forte, em doses pequenas e constantes, até que a doença seja erradicada ou ao menos tenha seus sintomas controlados e estabilizados. Faltando pouco mais de nove dias e já não suportando mais tamanha histeria (reforçada a cada dia pela mídia de massa que se aproveita da situação de várias maneiras), decidi contribuir, ou bagunçar de vez, com esse debate. Espero que se unam a mim nesta missão hercúlea.
Aliás, o dia para começar é bem cabalístico, visto que é 12/12/12 e se esta data for invertida teremos 21/21/21, ou seja, o dia do suposto fim repetido 3 vezes (opa, três representa a trindade presente em todas as grandes tradições religiosas). Aliás, se você somar os dígitos que formam o dia de hoje o resultado é 3, se somar os dígitos que formam o mês o resultado é 3 e se somar os finais do ano, também se obtêm 3. Três repetido três vezes, ou melhor, três ao cubo que é igual a nove o qual também é carregado de uma série de significados místicos (os quais vou reservar como surpresa para aqueles que desejarem pesquisar o tema por conta própria). Mais cabalístico do que isso, só se eu tivesse postado este texto às 12 horas e 12 minutos de hoje, mas como trabalho de verdade (ao contrário dos místicos de plantão já mencionados) só pude fazê-lo agora.
Alguns devem ainda estar pensando: quantas coincidências numéricas! Sinistro! Não mais sinistro do que acreditar que alguém possa descer por sua chaminé para te trazer presentes ao invés de te pilhar a casa, que coelhos te tragam ovos ao invés de mais coelhos (muito mais), que o Homem nunca tenha pisado na Lua, que movimentos planetários possam gerar campos de energia que se desloquem pelo espaço mais rápido que a luz e cheguem em nossas mentes influenciando no humor das pessoas, que mesmo com todas as mudanças de calendário promovidas ao longo de séculos ainda estejamos comemorando o nascimento de Jesus, Nosso Salvador, no dia correto... Ufa!!